Desafios do Terceiro Setor no Brasil: transparência, sustentabilidade e ética

Dia desses me perguntaram quais seriam, na minha opinião, os desafios para o Terceiro Setor no Brasil. O primeiro desafio é o de definir o que é o Terceiro Setor, um conceito um tanto laxo que em geral abarca as organizações representativas da sociedade civil, como as ONGs, entidades filantrópicas, institutos e fundações empresariais e familiares. Ou seja, tudo aquilo que não é tipicamente governo ou setor privado lucrativo.

Mas na prática há três desafios importantes que estão intimamente relacionados: transparência/accountability, sustentabilidade e ética. Transparência/accountability no Terceiro Setor são elementos que estão em discussão há tempos. Eu, pelo menos, acompanho a discussão pelo menos há uns 20 anos, quando comecei minha vida profissional como estagiário em uma ONG do Rio de Janeiro. Mas em um mundo interconectado, no qual a informação gira de maneira quase instantânea e no qual há cada vez mais cidadãos conscientes e participantes, estes elementos tornaram-se absolutamente fundamentais para a própria sobrevivência das organizações que atuam no setor social.

As transformações passam pela capacidade de as pessoas/cidadãos compreenderem perfeitamente seus papéis nos processos de mudança e, sobretudo, de entenderem e valorizarem o esforço das organizações políticas (não apenas as organizações da sociedade civil, como mesmo os partidos políticos) na construção de uma sociedade melhor e mais justa.

O desafio para o Terceiro setor em geral o de ser capaz de tornar mais transparente seus esforços, inclusive expondo suas debilidades, e prestar contas de suas ações de maneira profissional e abrangente.

No campo da sustentabilidade, o mundo empresarial tem caminhado muito mais do que o social e mesmo o governamental. Geralmente discussões sobre sustentabilidade no Terceiro Setor ficam restritas à sobrevivência financeira das organizações – o que é certamente fundamental.

Mas é preciso vincular esta discussão ao impacto que a própria organização tem sobre o ambiente e a sociedade. Isto passa, por exemplo, por ações relativamente simples como calcular a pegada ecológica e racionalizar o uso de recursos não apenas internamente, mas entre os parceiros / beneficiários.

Abarca também processos muitas vezes complexos para as organizações sociais, como manter uma relação de equilíbrio e respeito aos funcionários, garantindo-lhes seus direitos básicos e um ambiente de desenvolvimento pessoal e profissional.  Isto parece óbvio, mas o tema da sucessão de lideranças no Terceiro Setor é uma das caixas pretas mais difíceis de serem abertas e enfrentadas.

Recentemente em um artigo para o jornal britânico The Guardian, Daniela Barone Soares, Diretora do Impetus Trust, um fundo britânico de apoio às organizações não lucrativas,  chama a atenção para o risco que organizações correm ao atrelar sua continuidade à sorte de um líder carismático, muitas vezes o fundador.

A sustentabilidade, neste caso, passaria por garantir um processo de planejamento de longo prazo, o qual inclua um plano de sucessão e desenvolvimento de lideranças.  Algo infelizmente ainda impensável para a maioria das organizações do Terceiro Setor no Brasil.

Outro aspecto importante do processo de sustentabilidade do setor passa pelo envolvimento da sociedade nas causas defendidas, não apenas apoiando as organizações financeiramente e politicamente, mas irradiando os conceitos defendidos no universo pessoal e profissional de cada pessoa.

Finalmente, o aspecto ético perpassa e dá sentido aos elementos mencionados anteriormente. As instituições políticas tradicionais, incluídos os partidos políticos, os Poderes do Estado e até partes importantes do setor empresarial, passam por um profundo descrédito junto à sociedade. Este descrédito estimula uma indiferença ou até mesmo uma reação negativa às propostas de fundo ético que provenham destes setores, porque se contradizem com a experiência prática das pessoas.

O Terceiro Setor e as organizações que nele militam devem ser extremamente cuidadosas para não ser arrastadas a esta vala comum de indiferença e descrença e por isso sua obrigação de manter padrões éticos claros e inegociáveis é ainda maior.

About these ads

Uma resposta para “Desafios do Terceiro Setor no Brasil: transparência, sustentabilidade e ética

  1. Pois é Renato. Tenho atuado com organizações do terceiro setor há um tempo e noto que o cerne da questão está em seu modelo de financiamento. Aparentemente, os que são financiados por grandes grupos de pessoas físicas (Oxfam, GreenPeace, etc) tem maior autonomia para definir sua agenda. No lado oposto, organizações de peso mas com financiamento do setor privado tendem a, com o tempo, aderir à agenda destes. Nenhum problema, desde que eles não sejam conflitantes. Mas, qualquer que seja o modelo, a transparência é a base de tudo. E isso é muito difícil, muito mesmo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s