Produção de alimentos, consumo de energia e sustentabilidade

A questão dos alimentos e da alimentação saudável está se tornando um tema de debate global, ao ponto de levar grandes empresas multinacionais do setor a revisar suas estratégias de negócios para produzir produtos com impacto menor sobre o meio ambiente e com melhores índices de “saudabilidade” (menor gordura, sal e açúcar, por exemplo). Mas em tempos de aquecimento global, outro aspecto que vem gerando cada vez mais discussões é o impacto da produção, distribuição, comercialização e preparo de alimentos no consumo de energia, e conseqüente, na pegada de carbono.

Cresce com força nos Estados Unidos e Europa um movimento chamado “Locavore”, de valorização da “comida local”, ou seja, de estímulo ao consumo de produtos – até mesmo industrializados – produzidos com insumos da região onde vivem os consumidores e que tenham a mínima necessidade possível de deslocamento entre a produção e a mesa. Isto teria dois impactos práticos imediatos: o estímulo aos produtores locais e o impacto menor no uso de energia para produção, transporte e comercialização destes produtos.

Um artigo interessante publicado no “Business Insider” procura jogar um pouco de luz sobre o tema de energia e produção e distribuição de alimentos, partindo da constatação que somente nos Estados Unidos a produção de alimentos é responsável por 15% do consumo nacional de energia e o item médio de alimento, por sua vez, viaja mais de oito mil quilômetros entre o campo e a mesa. Diante disso parece óbvio que é melhor, do ponto de vista energético, consumir produtos feitos e transportados localmente. Mas será mesmo?

O autor do artigo, Michael Bomford, professor da Kentucky State University e membro do Post Carbon Institute, procura provar que a adesão acrítica a este modelo pode, na verdade, levar a um consumo maior de energia. Ele cita a pesquisa Energy Use in the US Food System, feita em 2010 pelo Departamento de Agricultura do governo americano, segundo a qual o sistema de alimentação é responsável por 14,4% de toda a energia consumida nos Estados Unidos.

Energia usada pelo sistema de alimentação proporcionalmente ao total de unergia consumida nos Estados Unidos em 2002. Fonte: Michael Bomford, baseado nos dados do relatório Energy Use in the US Food System.

Deste percentual o transporte é o menor responsável pelo uso de energia (em torno de 0,6%). Os principais vilões são o processamento dos alimentos, embalagem, venda e o preparo. Aliás, as cozinhas de nossas casas consomem mais energia (4,1%) para preparar os alimentos do que as fazendas para produzi-los (2,0%).

No que se refere ao transporte, fica evidente para o autor que mais importante do que a distância que o alimento percorre para chegar a nossas casas é a forma como ele é transportado. Neste contexto, alimentos que tenham cruzado longas distâncias em navios de grande porte, como cargueiros ou barcaças, que podem transportar grandes quantidades, usam menos energia por tonelada proporcionalmente do que os alimentos transportados por caminhões pequenos ou caminhonetes, que transportam menos alimentos em distâncias menores.

O resultado mais interessante do estudo, na verdade, é mostrar quais tipos de alimentos usam mais energia para ser produzidos. E neste quesito, os produtos industrializados de “junk food” (batatas chips, donuts, refrigerantes e cervejas etc.) são os campões: consomem mais de 50% da energia usada pelo sistema de alimentação. Um terço é consumido pelos produtos de origem animal (carne, ovos, laticínio, por exemplo). Apenas um sexto de energia é consumida na produção de frutas, grãos e cereais.

Em outras palavras, justamente os alimentos que trazem menos benefícios para a saúde são os que consomem mais energia para ser produzidos. Ou, como diz Michael Bomford, em seu artigo: “comer bem não necessariamente requer muita energia; comer mal, sim.

Neste sentido, a diferença, em termos de consumo de energia, entre comprar alimentos em supermercados ou diretamente de produtores locais (em feiras-livres, por exemplo), não é tanto pela proximidade entre produtos e consumidor. O diferencial, na visão de Michael Bomford, é que os mercados consomem necessariamente mais energia ao vender majoritariamente produtos processados e embalados, além de ter uma estrutura artificial de iluminação, de aquecimento e resfriamento, entre outros elementos altamente consumidores de energia.

As feiras e mercados de venda direta dos produtores, ao contrário, geralmente usam pouca eletricidade e vendem produtos “in natura”, com pouca industrialização envolvida. Ou seja, estão fora do esquema de processamento, embalagem e comercialização típica, que consomem muito mais energia do que o transporte em si.

Claro que nem tudo é tão simples. Alimentos fora de estação produzidos localmente a partir do uso de luz artificial ou estufas gastam mais energia do que alimentos dentro da estação importados de outros lugares.

Entrada per capita de energia no sistema de alimentos dos Estados Unidos, por grupo de alimentos e fase de produção, excluindo energia para uso doméstico. Fonte: Michael Bomford, baseado nos dados do relatório Energy Use in the US Food System.

E os alimentos orgânicos? Do ponto de vista energético fazem ainda mais sentido, já que seus produtores, em geral, reduzem em um terço o uso de energia ao não utilizar nitrogênio sintético como fertilizante. Mas, como lembra Bomford, um refrigerante feito de componentes “orgânicos” continua sendo um refrigerante. Como todo produto altamente processado, “mais energia é usada para produzir a lata de alumínio do que para plantar e produzir xarope de milho, seja orgânico ou não”.

O autor termina seu texto com cinco recomendações para os consumidores:

  1. Preferir alimentos naturais em vez dos processados.
  2. Usar refrigerador eficiente no uso de energia.
  3. Trocar produtos de origem animal por proteínas provenientes de grãos e vegetais.
  4. Beber água de torneira em vez de bebidas processadas.
  5. Escolher alimentos produzidos em regiões melhor adaptadas para o cultivo, usando métodos que protejam o solo e que dependam primariamente da luz solar para energia e da água de chuva para hidratar.

Ou seja, a vida não é fácil para o consumidor que queira amenizar o impacto no consumo de energia dos alimentos que consome. Para as indústrias, principalmente as que trabalham com alimentos processados, a vida é ainda mais difícil, já que a essência do negócio, no seu aspecto de produção e distribuição, é necessariamente consumidora de energia.

Em termos práticos, acho muito difícil para a maioria dos consumidores implementar as recomendações dadas, por diferentes razões de fundo cultural, econômico, social, de falta de estrutura etc. Por outro lado, olhando o lado cheio do copo, as grandes indústrias de alimentos e bebidas têm feito esforços sérios no sentido de racionalizar o uso de água e energia nos seus processos produtivos.

Neste contexto, acredito muito mais na força do controle social de consumidores e governos no sentido de pressionar as indústrias para expandir ainda mais seus investimentos de inovação e racionalização no uso de energia.

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Uma resposta para “Produção de alimentos, consumo de energia e sustentabilidade

  1. Olá, Renato

    Muito interessante essa matéria, agradeço.

    Curioso perceber que as receitas para a sustentabilidade (pelo lado dos cidadãos, pouco se fala sobre o lado das indústrias, empresas), passam pelas antigas receitas que foram abandonadas ao adquirirmos o modo de vida mais urbano – alimentar-se bem, economizar energia etc…

    De todo modo, vale pela volta às origens ! Porque da maneira que está não pode ficar, estamos vivendo dias muito difíceis, muito ligeiros, onde pouco importa o coletivo e prevalece a concorrência.

    Abraços, amigo. E siga em frente, pois tem realizado um belo trabalho.

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