A música que embalou o nascimento do Greenpeace

Brothers and sisters in green peace…  Green peace is beautiful! And you are beautiful because you are here tonight. You came here because you are not on a death trip! You believe in life, you believe in peace, and you want them now!  By coming here tonight you are making possible a trip for life and for peace. You are supporting the first Green Peace project: sending a ship to Amchitka to try to stop the testing of hydrogen bombs there or anywhere!

Estas palavras lançaram publicamente o embrião do que viria a se transformar em poucos anos na maior e mais conhecida organização de defesa do meio ambiente do mundo. Eles saíram da boca de um dos seus fundadores, Irving Stowe, quando na noite de 10 de outubro de 1970 ele saudou as 10 mil pessoas presentes no Pacific Coliseum, em Vancouver, para  um show que reuniu no mesmo palco os ídolos da folk music Phil Ochs, Joni Mitchell e James Taylor.

O registro deste show histórico foi recuperado e lançado recentemente em um CD duplo chamado “Amchitka – The 1970 concert that launched Greenpeace”. Não é preciso gostar de folk music ou ser um sócio da entidade ambientalista para apreciar as 25 canções que evocam uma época hoje vista como ingênua, mas que mantêm certo frescor em meio ao cinismo político dos dias atuais.

O show foi organizado quase que de uma hora para outra com o fim de arrecadar fundos para alugar um barco que levaria um grupo de ativistas (ou “porras-loucas”, dependendo do ponto de vista) para uma viagem quase suicida ao arquipélago das Aleutas, no Mar de Bering, entre o Canadá e a então União Soviética. O objetivo era evitar uma série de testes nucleares programados pelo governo americano perto da ilha de Amchitka.

O temor muito disseminado na época era de que os testes poderiam desestabilizar geologicamente a região e provocar um desastre de grandes proporções, incluindo gigantescos tsunamis. A Ilha também era o santuário de lontras marinhas, cuja sobrevivência poderia ser ameaçada pela radiação provocada pelas explosões subterrâneas.

As músicas do CD captam bem o clima de “paz e amor” da época, mas não escondem o ambiente político sombrio causado pelo apogeu da Guerra Fria. Alguns dias antes do show o primeiro-ministro canadense Pierre Elliott Trudeau decretou lei marcial, depois de uma série de ataques terroristas perpetrados por um grupo separatista de Quebec. As liberdades civis foram suspensas, mas a apresentação aconteceu assim mesmo. Phil Oaks não deixou passar esta tensa contradição e antes de tocar a música “Rhythms of Revolution” lembrou que “não era todo dia que se podia tocar em um Estado policial”. A plateia veio abaixo, como o CD registra tão bem.

Outro dado interessante é que as músicas foram recuperadas do formato mono original pelo produtor Peter J. Moore. Ele teve o cuidado de aplicar o mínimo de truques de estúdio, de forma que o CD consegue manter muito da vibração original, sem perder qualidade. A juventude das vozes de Joni Mitchel, Phil Oaks e James Taylor são mantidas e mesmo pequenas imperfeições, microfonias até uma que outra desafinação ajudam a manter o clima e dar um toque de verdade que falta nos ultra-remasterizados e editados lançamentos atuais.

Alguns pontos altos do CD, na minha opinião, são Phil Oaks e sua já citada “Rythms of Revolution”, James Taylor cantando sua já então clássica “Fire and Rain” e “Something in the way she moves” (que teria inspirado o primeiro verso de “Something”, de George Harrison), além do duo improvisado entre Joni Mitchell e James Taylor para “Mr. Tambourine Man”.  O show termina com uma interpretação coletiva de “The Circle Game”, clássico de Mitchell.

O CD pode ser comprado, via internet, aqui. Leva uns 20 dias para chegar, mas a espera vale a pena.

História do Greenpeace

É possível que o CD já esteja por aí para download, mas contar com ele fisicamente traz o bônus de se ter acesso também ao excelente encarte que o acompanha. Além de fotos históricas do concerto, há um texto escrito pela filha do fundador do Greenpeace, Barbara Stowe, que na época tinha 14 anos de idade. Ela faz um reconto na primeira pessoa não apenas dos bastidores da preparação e realização do show, mas principalmente da formação do grupo ambientalista.

O Phylis Cormack, rebatizado de Green Peace, a viagem a Amchitka. Fonte: Greenpeace

É interessante comparar a quase ubiquidade atual do Greenpeace com a sua gênese, 40 anos atrás, a partir de um grupo de militantes pacifistas vivendo na fria costa oeste do Canadá. Ela explica como a ação aparentemente transloucada de alugar um barco e levá-lo ao local de um teste nuclear estava perfeitamente coerente com a visão de mundo adotada por sua família, que era Quaker.

Entre os princípios adotados pelos quakers, além do pacifismo, está o de “bearing witness”, cuja tradução para o português é difícil, mas que significa algo como “testemunha ativa” ou “testemunha presente”. Em termos práticos isto significa que a consciência de que um mal está para ser feito traz o imperativo moral de aceitá-lo ou agir de forma concreta e visível para impedi-lo ou denunciá-lo. Daí para a ideia de alugar um barco e levar um grupo para o local mesmo de um teste nuclear fazia todo o sentido.

O grupo de militantes precursor do Greenpeace se chamava “Comitê Não Faça a Onda” e tinha entre seus simpatizantes Bob Hunter, um jornalista que escrevia sobre temas ambientais para o jornal local. Ele e outros jornalistas tomaram parte da tripulação e ajudaram a dar o toque midiático que faltava para que aquela aventura de zarpar mar adentro em um precário barco, rebatizado de Green Peace, reproduzisse a mística de “Davi contra Golias”, necessária para incendiar as emoções e a solidariedade de milhares de pessoas no Canadá, Estados Unidos e até no Japão.

Três dos fundadores do Greenpeace: Irwing Stowe é o da direita da foto. No centro está o estudante de Direito Paul Cote e do seu lado, à esquerda da foto, está Jim Bohlen, engenheiro florestal e veterano de guerra. Fonte: Greenpeace

O nome Greenpeace, segundo o registro de Barbara Stowe, surgiu espontaneamente quando seu pai cumprimentou em uma reunião o ativista Bill Darnell fazendo um V com os dedos e gritando “Hey, Bill, Peace!”, ao que ele respondeu “Let´s make it a green peace!” Assim, de uma interjeição surgida quase ao acaso, Irving Stowe percebeu que se juntavam duas forças poderosas em uma simples e única expressão: a transcendência política do movimento pacifista e a emergente preocupação com o meio ambiente, tema que já começava a capitalizar as atenções públicas.

O resto é história, que ainda está sendo contada e recontada até hoje. Mas é muito interessante beber um pouco nas fontes originais e entender como os processos de transformação surgem da conjunção de ideias, ações e um grupo de pessoas dispostas a levar adiante a frase inspiradora de Gandhi: “Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”.

Para quem não puder ou quiser comprar o CD “Amchitka – The 1970 concert that launched Greenpeace” é possível ler o texto do encarte, escrito por Barbara Stowe, aqui. Informações completas sobre o CD e o show histórico podem ser obtidas aqui.

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