“Desaquecimento” global – comunicação transformando incerteza em negação

Uma “história da Carochinha” de proporções globais começou a ser construída há alguns anos, tem sido comprada por boa parte da mídia internacional e já influencia a opinião pública em diversos países.  O enredo é simples: ao contrário do que se diz, a ciência por trás do aquecimento global não pode afirmar com absoluta certeza que a temperatura do planeta está aumentando e, no caso de isto estar acontecendo, que são os seres humanos os responsáveis pelo processo. Sendo assim, as ações que vem sendo propostas para controlar ou reduzir a emissão de gases de efeito estufa pelas atividades humanas seriam exageradas e/ou desnecessárias.

Uma lógica simplista, apoiada por entrevistas e artigos de opinião de “especialistas” disseminados, mundo afora, pela imprensa “séria”. Reportagens sobre a suposta utilização indevida –  ou a manipulação pura e simples – de dados de pesquisas e erros factuais em relatórios produzidos pelo IPCC (o painel de cientistas da ONU que investiga o aquecimento global) são usados também para reforçar a percepção de que existiria “algo de podre” no consenso que vinha se armando sobra mudança climática, suas conseqüências e o papel da humanidade neste processo.

Já em 1991 o Information Council on Environment (ICE) perguntava em uma pesquisa feita na região de Minneapolis (EUA): “Você está disposto a pagar por algo que provavelmente nem é verdade?” Uma pergunta cristalina que, pela forma como é formulada, conduz a uma resposta lógica: um rotundo não. E parece que esta é uma resposta cada vez mais popular.

Menos britânicos acreditam no aquecimento global e na responsabilidade da humanidade nesse processo. Fonte: BBC

Uma pesquisa da BBC feita em fevereiro mostrou que apenas 26% dos britânicos acreditavam que as mudanças climáticas estão acontecendo e que em grande parte é responsabilidade dos homens. Em novembro de 2009 o percentual dos que acreditavam era de 41%. A Alemanha apresenta tendências semelhantes, segundo uma pesquisa da revista Der Spiegel, segundo a qual em quatro anos, de 2006 a 2010, a porcentagem de alemães que acreditavam no aquecimento global caiu de 62% para 42%.

O New York Times, que publicou a reportagem com os dados acima, reproduziu a pergunta que anda pela cabeça de ecologistas e cientistas mundo afora: se nada mudou no consenso científico sobre mudança climática, o que aconteceu para que tanta gente deixe de acreditar que a atividade humana é responsável por este aquecimento?

A resposta para o fenômeno de como o “Conto da Carochinha da negação do aquecimento global” está se impondo junto a parcelas significativas da opinião pública é bem representada pela existência do próprio Information Council of Environment (ICE), mencionado acima. A organização, que não existe mais, foi criada com recursos provenientes de três entidades representativas da indústria de energia, petróleo e carvão americana.

Imediatamente lançou uma campanha de comunicação orçada em US$ 500 mil com o objetivo de “reposicionar o aquecimento global como teoria (e não um fato)”. Para isso, três cientistas reconhecidos pelo ceticismo com relação ao aquecimento global foram convocados para fazer parte do “conselho científico” da entidade. Pesquisas de opinião e campanhas públicas foram desenvolvidas para reforçar esta sensação de dúvida. Entre as peças, um cartaz que desafiava: “Dizem que a Terra está esquentando. Também diziam que Terra era plana”.

Este modus operandi da ICE resume os principais elementos da estratégia de descrédito da ciência do aquecimento global:

1. Espalhe descrença e dúvida

Essa é fácil. Ao contrário do que a maioria pensa, a ciência não trabalha com “certezas”. Estas geralmente ficam no campo das religiões e ideologias. No caso do aquecimento global, o que a ciência procura determinar, por meio de um método válido de investigação e validação entre pares, é se o fenômeno está acontecendo, qual é a causa e quais serão suas conseqüências para o planeta, especialmente para a humanidade.

No campo da mudança climática, o consenso científico indica que: (1) o processo já está acontecendo; (2) as atividades humanas têm um impacto significativo na ampliação do fenômeno; (3) o aumento da temperatura média do planeta trará conseqüências globais que afetarão fortemente o modo de vida da humanidade (sem falar das outras formas de vida). Este consenso reconhece o grau de incerteza que acompanha os processos de investigação científica. Este tema, aliás, é examinado em um artigo muito bom da Union of Concerned Scientists.

O esforço de comunicação dos “negadores” é justamente o de fazer parecer que a “incerteza científica” é na verdade dúvida e com isso criar uma sensação de ceticismo com relação à ciência do aquecimento global. Isso gerou toda uma fauna de “céticos”, que inclui desde cientistas (a maioria sem nenhuma vinculação direta com pesquisas no campo da ciência climática), lobistas, jornalistas e palpiteiros em geral, sempre a postos para emprestar suas voz para manter um debate “equilibrado” sobre o aquecimento global.

Isso leva ao ponto seguinte da estratégia:

2. Use o “equilíbrio jornalístico” contra a verdade

Um corolário típico do discurso jornalístico é a importância de se “ouvir o outro lado” para garantir uma cobertura equilibrada dos fatos e a produção de notícias que cubram os diferentes, e muitas vezes contraditórios, aspectos da realidade. Qualquer jornalista é adestrado para a importância “do outro lado” e alguns veículos de imprensa mantém profissionais com a missão específica de checar os fatos apurados, especialmente em reportagens mais polêmicas, para garantir alguma equidade na cobertura.

A realidade mostra que este equilíbrio é na maioria das vezes uma quimera, sempre modulada pelos interesses políticos e econômicos da mídia. No caso do debate sobre aquecimento global a distorção se dá no momento de abrir um espaço para os céticos que é claramente desproporcional à contribuição real que eles dão – ou têm a dar – na discussão científica. Isso faz com que, na maioria das vezes, o discurso dos céticos caia mais na categoria de “opiniões” do que na de investigação científica séria.

O que parece busca de equilíbrio na cobertura acaba colocando no mesmo nível de credibilidade a investigação científica séria e a retórica lobista de grupos de interesses privados.

O interessantíssimo livro “Climate Cover Up – The crusade to deny global warming”, escrito por James Hoggan em parceria com Richard Littlemore, traz os dados reveladores de duas pesquisas que mostram como a mídia ajuda neste processo de confusão.

A primeira pesquisa, feita entre 1993 e 2003, analisou uma base de dados de artigos científicos sobre aquecimento global tratando de determinar se eles apoiavam, negavam ou eram indiferentes à teoria de que a produção de gases de efeito estufa a partir das atividades humanas era responsável por este aquecimento. Foram encontrados 928 artigos e nenhum deles se apunha a esta teoria.

No mesmo período a cobertura da imprensa não refletia este consenso. Outra pesquisa analisou o arquivo de quatro grandes jornais americanos (New York Times, Wall Street Journal, Washington Post e Los Angeles Times), no período entre 1998 e 2002, em busca da cobertura sobre clima. Como resultado, 53% das matérias publicadas pelos quatro jornais traziam declarações de cientistas defendendo o consenso sobre aquecimento global acompanhadas de análises feitas por porta-vozes do lado dos céticos.

Todo mundo tem o direito a ter e dar opinião e palpites, mas estes não deveriam ser colocados na mesma categoria que a investigação científica séria. No mínimo os jogos retóricos dos céticos deveriam ser apresentados como tais nas reportagens sobre o tema, sob o risco de confundir o cidadão comum fazendo-o acreditar que realmente existem duas correntes de investigações científicas equivalentes, cada qual defendendo uma linha quase que oposta no que se refere ao aquecimento global.

3. Se não pode com eles, destrua-os

O principal alvo dos céticos – e dos grupos políticos e econômicos que os apoiam – é o IPCC. Em geral o ataque não costumava não ser direto e se centrava mais em questionar os interesses políticos por trás de suas conclusões e sugestões, sua suposta resistência a aceitar os questionamentos dos “céticos” e o “descolamento” da realidade de suas propostas.

Mas em 2009 os golpes passaram a ser mais baixos. Desconhecidos invadiram os servidores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e acessaram os emails trocados entre importantes investigadores do aquecimento global, publicando-os na internet. Em um destes emails, cientistas britânicos se referem a um procedimento usado pelo reconhecido especialista americano Michael Mann como um “truque”.

Foi o bastante para os céticos começarem uma campanha histérica de descrédito do IPCC acusando os cientistas de deliberadamente manipular dados de pesquisas para fortalecer a argumentação de que a humanidade tem responsabilidade no aquecimento global. A imprensa repercutiu estas acusações globalmente.

Não por coincidência, tudo isto aconteceu poucos meses antes da Conferência de Copenhagen. Serviu principalmente para ajudar a aumentar a percepção pública de que não apenas não há consenso sobre o aquecimento global, como de que existem cientistas manipulando dados de propósito. Isto invalidaria, ao menos em parte, seus argumentos.

O fato é que meses depois, investigações e inquéritos conduzidos tanto pela Universidade de East Anglia, como pela Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, onde Michael Mann é pesquisador, inocentaram os cientistas das acusações de má-conduta. Isto mostra que o “Climagate”, como ficou conhecido o caso, não passou de manipulação pura e simples. A notícia da inocência dos pesquisadores, como era de se esperar, nem de perto teve o mesmo destaque na imprensa que teve o vazamento dos emails obtidos de forma ilegal.

4. Faça movimento para que outros falem em seu nome

Uma estratégia muito usada é o financiamento ou criação de associações e organizações de base supostamente organizadas por cidadãos preocupados em promover a agenda do ceticismo ambiental. Neste universo também se incluem as organizações de investigação científica que começaram a pulular nos últimos 15/20 anos para dar voz aos “céticos” no debate público da mudança climática.

O livro “Climate Cover Up” traz uma lista destas organizações e o moduz operandi de criação e financiamento das mesmas. Aliás, é um exercício muito esclarecedor constatar como a maior parte das fontes de dinheiro destas organizações provém do caixa de empresas ou associações empresariais vinculados às indústrias do petróleo e carvão. Não por coincidência, as maiores interessadas em jogar confusão no debate sobre o clima e descrédito sobre a ciência da mudança climática.

A boa notícia é que a argumentação científica vai prevalecer no final. É inevitável. Afinal, é só lembrar que este tipo de campanha de desinformação não é novo. Repete quase todos os elementos da campanha de descrédito levada adiante os anos 60 e 70, pela indústria do tabaco, para minar o consenso médico e científico que associou o fumo ao câncer de pulmão. Aliás, alguns dos atores envolvidos são os mesmos, como demonstra o imperdível relatório “ExxonMobil’s Tobacco-like Disinformation Campaign on Global Warming Science”, lançado há três anos pela Union of Concerned Scientists.

A má notícia é que talvez não tenhamos tempo para esperar que a ciência do aquecimento global se consolide ao ponto de que governos e empresas implementem as medidas urgentes para impedi-lo ou desacelerá-lo. Isto deixa mais evidente o grau de irresponsabilidade – ou de loucura suicida – das pessoas e grupos envolvidos na sua negação.

A esperança é que com a emergência das mídias sociais e o conseqüente fortalecimento do controle social ajudem a jogar luz sobre as estratégicas e práticas comunicativas dos céticos e reverter mais rapidamente o processo de negação do aquecimento global. Afinal, este é um tema que não interessa mais às gerações futuras, e sim às gerações atuais. A todos nós que já estamos testemunhando  – e vivendo sob – os efeitos da mudança climática.

Anúncios

Uma resposta para ““Desaquecimento” global – comunicação transformando incerteza em negação

  1. O que os capixabas pensam sobre Mudanças Climáticas?

    De modo a conhecer o perfil de percepção ambiental da sociedade frente à problemática (causas, efeitos, prós e contras) das Mudanças Climáticas, tendo como base a Região da Grande Vitória, ES – municípios de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica – o Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA (grupo sem fins lucrativos), desenvolveu uma pesquisa (35 aspectos abordados) com 960 pessoas (+ – 3% de erro e 95% de intervalo de confiança), com o apoio da Brasitália Mineração Espírito Santense.

    Metade dos entrevistados foi de pessoas com formação católica e, os demais, evangélica. Apesar de a amostra ter sido constituída dessa forma o objetivo da pesquisa não visa individualizar os resultados para cada segmento religioso em questão. Em um segundo estágio da análise dos dados (banco de dados do SPSS) isso ocorrerá, quando serão explicitadas diferenças de percepção ambiental dos dois grupos – católicos e evangélicos – mas sem nominar a origem de formação religiosa dos membros da amostra.

    Os entrevistados admitem ler regularmente jornais e revistas (48,1%), assistem TV (58,3%), não participam de Audiências Públicas convocadas pelos órgãos normativos de controle ambiental (88,9%), bem como de atividades ligadas ao Meio Ambiente junto às comunidades (não – 43,2% / não, mas gostaria – 39,7%), apresentam um reduzido conhecimento das ONGs ambientalistas (4,9%), não acessam (72,8%) sites ligados à temática ambiental (19,1% não tem acesso a computador), além de indicarem o baixo desempenho das lideranças comunitárias no trato das questões ambientais (29,2% / sendo que 40,0% admitem não conhecer as lideranças de suas comunidades), e admitem interesse por temas ligados à temática ambiental (42,3% / 44,2% apenas às vezes).

    Admitem conhecer termos (não verificada a profundidade do conhecimento assumido) como biodiversidade (63,6%), Metano (51,7%), Efeito Estufa (81,3%), Mudanças Climáticas (84,7%), Crédito de Carbono (26,0%), Chuva Ácida (57,8%), Agenda 21 (16,5%), Gás Carbônico (60,9%), Clorofuorcarbonos (36,6%), Aquecimento Global (85,4%), bicombustíveis (74,1%), Camada de Ozônio (74,3%) e Desenvolvimento Sustentável (69,5%), com 70,0% do grupo relacionando às atividades humanas às Mudanças Climáticas e que a mídia divulga muito pouco os temas relacionados ao meio ambiente (44,2%), apesar da importância do tema.

    A ação do Poder Público em relação ao meio ambiente é considerada fraca (48,2%) ou muito fraca (30,2%), os assuntos ligados à temática ambiental são pouco discutidos no âmbito das famílias (60,1% / 15,5% admitem nunca serem discutidos), enquanto a adoção da prática da Coleta Seletiva só será adotada pela sociedade se for através de uma obrigação legal (34,3%) e que espontaneamente apenas 35,7% adotariam o sistema. Indicam que os mais consumos de água são o “abastecimento público” (30,3%), seguido das “indústrias” (22,9%) e só depois a “agricultura” (10,7%), percepção inversa a realidade.

    Em análises em andamento, os resultados da pesquisa serão correlacionados com variáveis como “idade”, “gênero”, “nível de instrução”, “nível salarial”, “município de origem”, entre outras, contexto que irá enriquecer muito a consolidação final dos resultados, aspectos de grande importância para os gestores públicos e privados que poderão, tendo como base uma pesquisa pioneira no ES, definir ações preventivas e corretivas voltadas ao processo de aprimoramento da conscientização ambiental da sociedade.

    É importante explicitar que, com o apoio do NEPA, está pesquisa já está sendo iniciada em outras capitais. O grupo está aberto a realizar parcerias de modo a assegurar, progressivamente, o conhecimento do perfil nacional da sociedade em relação à temática das Mudanças Climáticas. Não há como ignorar, se é que ainda não se deu a plena atenção a este fato, a importância da participação consciente da sociedade nas discussões que envolvem este importante tema.

    Roosevelt S. Fernandes, M. Sc.
    COEMA – CNI
    CONSUMA – FINDES
    COMARH – FAES
    Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental / NEPA
    roosevelt@ebrnet.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s