McDia Feliz – Eu não fui!

Sábado, 28 de agosto, foi o McDia Feliz, o dia do ano quando a renda da venda de BigMacs vai para financiar o trabalho feito pelo Instituto Ronald McDonald, de apoio a crianças com câncer. A campanha acontece no Brasil e em outros países com um sistema de promoção semelhante, ao usar, por exemplo, celebridades para servir os sanduiches aos clientes. Em 2009 a campanha brasileira arrecadou R$ 11.661.422,24 com a venda de aproximadamente 1,34 milhão de Big Macs, segundo dados da empresa. Eu não participei e não me arrependo nem um pouco disso, mesmo porque tenho outras maneiras de fazer minha contribuição para a sociedade.

Mas gostaria de explicar a razão. Antes quero deixar claro que como do McDonalds (prefiro o quarteirão com queijo – nunca gostei muito do BigMac) e volta e meia a família toda faz um pitstop em alguma das lojas da rede, geralmente na da Henrique Schauman, em Pinheiros. Quando viajo, acabo uma que outra vez comendo em uma das lojas. Digo isso para deixar caro que não tenho posição ideológica fechada contra a empresa e seus produtos.

Também é óbvio que não tenho nada contra ajudar crianças com câncer, ou qualquer outro grupo social que necessite apoio. O esforço de empresas, governos, instituições sociais e indivíduos nunca será suficiente para responder a toda necessidade que existe no mundo. Portanto, toda ajuda é bem vinda. Assim, as pessoas que participam do McDia Feliz e, com isso, apoiam o trabalho do Instituto Ronald McDonald, de reconhecida qualidade, contam com meu respeito.

Sei que meto a mão em um vespeiro, afinal se trata de uma ação em favor de crianças com câncer. Mas o que me incomoda muito nesta campanha e outras semelhantes é o seu mal disfarçado caráter marketeiro. E mais ainda a adesão acrítica até de formadores de opinião que chegam ao ponto de perder a linha no Twitter e chamar de “idiotas”, “chatos” e “imbecis” a quem se posicionou contra a campanha (veja mais abaixo).

Eu tenho uma profunda desconfiança de campanhas de ação social cuja realização demanda um grande investimento de marketing e merchandising – em compra de espaço publicitário, confecção de peças, realização de eventos etc. Mesmo quando se usam voluntários, isto tem um custo, perfeitamente contabilizável. Tudo para arrecadar recursos que algumas vezes não se comparam ao que foi investido para captá-los.

Talvez não seja o caso do McDia Feliz, mas o McDonalds bem que poderia ganhar ainda mais em credibilidade se apresentasse de forma absolutamente transparente todos, digo TODOS,  os números – de tudo que foi investido para organizar e realizar a campanha versus o que foi arrecadado para o Instituto. Esta proporção é fundamental para indicar que não se trata de mais uma variação “greenwash” – neste caso, com o objetivo de maquiar a imagem da empresa por meio de seu investimento social.

Que tal casar com R$ 1,00 cada R$1,00 usado para comprar BigMacs no McDia Feliz?

Qualquer um pode argumentar que as empresas têm todo o direito a vincular sua imagem às ações sociais e ambientais que promovem ou apoiam. E eu estou totalmente de acordo. Isso ajuda a “mover a roda” do mercado de investimento social privado e deixa, em tese, todos felizes. Mas se o que se gasta em marketing e promoção é tanto ou mais do que receberão os beneficiários, então algo está profundamente errado. Melhor seria pegar esta verba e direcioná-la diretamente para eles, deixando, sei lá, uns 10% para fazer a publicidade disso.

Outra sugestão é que a empresa assuma publicamente o compromisso de doar para a instituição beneficiada R$ 1,00 dos próprios cofres para casar com cada R$ 1,00 arrecadado das pessoas. No caso do McDia Feliz isto significaria, caso sejam repetidos em 2010 os números de 2009, uma arrecadação total para o Instituto de cerca de 23 milhões de reais, metade dos consumidores, metade do bolso do McDonalds.

Aí, sim, eu acreditaria em uma ação solidária completa. No modelo atual, basicamente o que acontece é que os consumidores e os voluntários são chamados a dar sua parte, enquanto pelo lado da empresa fica em dar o suporte das lojas, a promoção, mobilização de fornecedores etc. Mas desconfio que o que ela investe “abrindo mão” dos lucros com o BigMac, é totalmente recuperado na venda dos outros produtos, incluindo o refrigerante e as batatas fritas que acompanham o combo. Afinal, as lojas ficam mais cheias do que nunca, o que deve alavancar as vendas de maneira geral. Isso sem falar no ganho com publicidade e fortalecimento da reputação corporativa, especialmente em tempos de fortes críticas à junk food

Já que é assim, que tal fazer um grande McDia Feliz no qual cada loja arrecadasse doações para o Instituto Ronald McDonald que não passassem pela compra obrigatória de algum produto? Ou pelo menos que garantisse que cada real doado geraria um real equivalente por parte do McDonalds, indo além de tudo o que a empresa faz para viabilizar o evento. É anticomercial para a empresa? Eu acho justamente o contrário e, neste caso, teria enorme prazer em participar.

Bestialógico da rede

Mau humor que nada tem a ver com o McDia Feliz

Outro ponto que me deixou surpreso, como mencionei acima, foi o grau de reação de alguns formadores de opinião às críticas surgidas em blogs e Twitter com relação ao McDia Feliz. Houve, é claro, as argumentações naïve de sempre, do tipo “se não quiser comer, compra o BigMac e dê para alguém” ou “ninguém é obrigado a comprar, então para de reclamar”. Até aí tudo bem.

O que me impressionou foram os exemplos de extremo mau humor e falta de educação de gente ligada ao humor, como o Marcius Melhem. Em seu perfi no Twitter eles chegou a chamar de “chatos” e “imbecis” os críticos mais veementes. Serei eu um deles? terei de comer salada no inferno também?

A defesa do McDia Feliz vale isso?

PS: sequer entrei no mérito de se promover um tipo de produto diretamente relacionado à epidemia de obesidade que afeta vários países do mundo, incluindo o Brasil. Este ano o McDia Feliz teve o azar de coincidir com a divulgação de um relatório do IBGE mostrando o aumento no peso médio de brasileiros de todas as idades e classes sociais, graças em grande parte aos maus hábitos alimentares. Vejam aqui. Esta discussão fica para outro post.

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8 Respostas para “McDia Feliz – Eu não fui!

  1. De acordo com tudo. Eu ainda mencionaria outros 3 aspectos:

    – ninguem compra apenas o bigmag. Portanto, a rede lucra alto com as vendas satelites ao lanche.
    – os jovens que trabalham na rede sao constantemente submetidos a assedio moral. Mas como sao de baixa renda e quase sempre lhes faltam instrucao, nao recorrem a justica. Ja ouvi diversos casos, muitos mesmo.
    – a rede, recentemente comecou a exigir que seus fornecedores seguissem rigidos padroes de rastreabilidade. Detalhe: os fornecedores precisam comprar uma licenca de software do mac para fazerem isso.

    Em resumo, nunca perdem, pouco abrem mao de seus resultados. Sempre duvido de empresas assim e de suas campanhas, que escondem um nucleo empresarial de praticas questionaveis e ate outras inaceitaveis sob uma fina casca de bommocismo uma vez por ano.

    Parabens pelo texto e pela coragem de expor tua opiniao.

    Aerton

  2. Pingback: eu também não vou no McDia Feliz | E agora?·

  3. Parabéns pelo post. É isso aí. Eu concordo plenamente e estou cansada desse tipo de marketing abusivo e enganoso. Temos que mostrar às essas empresas que elas tem obrigação social de ajudar mas de forma limpa e correta.

  4. Eu também não fui. Mas já participei de outros anos. Já fui voluntária na Casa Ronald ajudando pessoalmente as crianças e suas família. Sou doadora mensal até hoje. Ou seja, pago mais que um bigmac pro Instituto por mês. Por ano são no mínimo 15 sanduíches que arrecado pra causa. Depois que vi o filme Supersize me, não tive mais coragem de incentivar ninguém a comer bigmacs. Assim como vc, quando to com pressa, quando não tenho opção, como lá. Diria que raríssimas vezes. Se 2 no ano é muito. Então, se não acredito que o produto vá fazer bem às pessoas, não vou incentivá-las a comer, ainda que a renda vá pro Instituto. Prefiro fazer minha doação mensal em dinheiro pq sei (pq já estive lá dentro e vi) o quão importante é o trabalho de ajuda às crianças, jovens e familiares.

  5. Renato,
    Concordo com voce. Para mim, o MacDia Feliz eh o mesmo que o Crianca
    Esperanca da Globo… Ou aquele vendedor de tapete persa la em Lima que vendia tudo com 95% de desconto, lembra? Ficava ali na rua da Embaixada do Brasil.
    Essa gente toda esta perdendo dinheiro? Claro que nao.
    abs
    Jose

  6. Realmente. Falta transparência. Só isso.
    Aí sim, poderemos falar com propriedade se somos contra ou a favor do McDia Feliz.

    Se eles gastarem mais em propaganda do que arrecadarem para o Dia, não terei dúvidas: serei contra.

    Eu não me surpreenderia se fosse confirmado que trata-se de ação de pilantropia, e não filantropia.

  7. Lembrando que o dinheiro arrecadado é somente da venda do sanduiche puro e não do combo. Quem compra o combo não ajuda as crianças, só ao Mc Donald. Queria saber pq eles não fazem questão de anunciar isso…rs

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