Os economistas e a sustentabilidade

Na noite de 14/09 houve mais um encontro da série “Diálogos de Sustentabilidade”, promovida pelo Banco Itaú desde 2006. Desta vez, estiveram debatendo os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo, José Roberto Mendonça de Barros e José Eli da Veiga. O diálogo foi intermediado pelo jornalista Ricardo Arnt, organizador do livro “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade”, também lançado nessa noite, e que conta com os pontos de vista dos economistas já citados e de outros 12, como Delfim Neto, Maílson da Nóbrega, Sérgo Besserman Vianna e Pérsio Arida.

O debate foi riquíssimo e uma excelente oportunidade para entender como a sustentabilidade está sendo tratada pelos economistas. Alguns dos elementos que puxaram a discussão incluíram questões como a relação entre crescimento econômico e desenvolvimento sustentável, o tema das externalidades, pré-sal e educação, inovação tecnológica e mudança climática, sistema financeiro e economia de baixo carbono.

Tudo culminando com uma rica e provocadora reflexão lançada pelo economista José Eli Veiga sobre os critérios de definição de pobreza: questão de renda ou de acesso universal a ganhos básicos da civilização, como o saneamento básico? Como disse o economista: “No Brasil pelo menos 50% da população não tem esgoto. Não se pode falar em diminuição de pobreza sem resolver isso.”

O SustentaNews esteve presente no debate e o tuitou pelo perfil @renatoguimaraes. As hashtags usadas foram: #DialogosItau e #Sustentabilidade.  Vejam abaixo a timeline da tuitada. Evidentemente não é possível recuperar toda a riqueza do debate e muito menos registrar pormenorizadamente as ideias e argumentos apresentados por cada debatedor, ainda mais tendo apenas 140 caracteres para escrever, mas acredito que serve como uma introdução à discussão e estímulo aos leitores a se aprofundar no tema.

Também é difícil evitar simplificações e algum erro de interpretação. Se você esteve no debate é quer contribuir com correções ou adições importantes a este conteúdo, seja mais do que bem-vindo.

#DialogosItau – O que os economistas pensam sobre sustentabilidade
Debatem os economistas Belluzzo, José Roberto Mendonça de Barros e José Eli da Veiga.
Lançamento do livro “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade?”

O jornalista Ricardo Arnt, organizador do livro, vai mediar o debate.
Ricardo Arnt: Há economistas que consideram que nenhum desenvolvimento é sustentável.
Ricardo Arnt: Fundamental o diálogo entre ecologia e economia. É preciso escapar do embate ideológico que domina a esfera política estes dias.

Pergunta: economia de baixo carbono implica mudança no pensamento econômico ou é só mais uma crise?
Belluzzo: Trata-se de se discutir, sim, o estilo de desenvolvimento. Observamos uma caminhada em direção do agravamento das questões ambientais. 
Belluzzo: Teoria econômica não trata sistematicamente desta questão; alguns teóricos a tratam de forma tangencial.
Belluzzo: Cita Keynes: este modelo que se funda no dinheiro tende a nos afastar dos valores verdadeiros do Liberalismo e do Iluminismo, que são o de aproveitar a vida.
Belluzzo: Temos de ver na perspectiva de um ambiente construído pelo homem. Temos de valorizar as conquistas da humanidade.
Belluzzo: Mas é preciso também revisar o custo deste desenvolvimento para o ambiente. A teoria econômica não está preparada para isso.
José Eli: Difícil falar em mudança de paradigmas nas ciências humanas. Os paradigmas convivem. 
José Eli: Economistas americanos nos anos 70 achavam ecologia uma espécie de “quiromancia”.
José Eli: Existe um movimento de economistas ecológicos, mas não surgiu ainda uma mudança paradigmática no pensamento econômico.
José Eli: Mesmo estes [economistas ecológicos] não estão totalmente de acordo com a ideia de que é preciso parar de crescer para ter desenvolvimento sustentável.
José Eli: Já a posição tradicional diz que crescer ao máximo é bom para o meio ambiente.
José Eli: Posição intermediária: é preciso revisar a maneira como se mede o desenvolvimento.

Pergunta: como salvar o Protocolo de Kioto?
José Eli: primeiro revisaria o modelo. Ter unanimidade de 180 países é impossível.
José Eli: Países como EUA precisam necessariamente de tempo para fazer a transição, porque ainda dependem muito do modelo energético tradicional.
José Eli: Segurança energética é um tema emergente. Deve ser vista como uma oportunidade, não um sacrifício.
José Eli: Mesmo que as COPs não deem resultado, a transição para uma economia de baixo carbono já está acontecendo.
José Eli: Uma força para isso é quando houver uma Lei nos EUA que force esta transição. Se o Obama for reeleito, pode acontecer em 2013. Sem isso nada acontece.
José Eli: Um acordo internacional tem de ser precedido por um bom acordo no âmbito do G20.

Pergunta: qual é o papel do setor financeiro nesta transição para baixo carbono?
José Roberto: Tecnologias nascem em universidades, são testadas em empresas pequenas e ganham escala com o tempo.
José Roberto: Este processo exige financiamento e isso é um papel claro para o sistema financeiro. 
José Roberto: Existe espaço para o mercado de capitais financiar empresas menores e a implantação das soluções.
José Roberto: Há riscos, claro. Um dos financiadores, por exemplo, serão as indústrias de petróleo.
José Roberto: Empresas estão empurrando mudanças rápidas. É uma oportunidade extraordinária.

Recursos do Pré-Sal deveriam ser usados em boa medida para financiar inovação tecnológica na substituição do carbono. 

Pergunta: Inovação tecnológica vai resolver problema climático?
Belluzzo: Recursos do Pré-Sal deveriam ser usado em boa medida para financiar inovação tecnológica na substituição do carbono. 
Belluzzo: A questão da inovação tecnologia é uma oportunidade.  Depende da ação política dos homens sobre o futuro da Terra.
Belluzzo: Temos responsabilidade com nossos sucessores. Temos de escapar do imediatismo e pensar na nossa descendência. É um tema para toda humanidade.
José Eli: Na verdade, ninguém previu quando e como surgiria inovação tecnológica séria, vejam caso da Internet.
José Eli: Será preciso uma inovação radical, mas não acredito que ela já esteja por aí.
José Eli: Se a gente não conseguir, será como na Ilha de Páscoa: vamos para o beleleu.
Belluzzo: Não podemos comparar o colapso das civilizações antigas com o momento que vivemos a partir da Revolução Industrial.
Belluzzo: Temos hoje uma máquina de produzir inovações. Temos mais possibilidades que os sumérios, por exemplo, que tinham velocidade menor.
Belluzzo: Hoje a velocidade de inovação é muito maior, porque somos uma sociedade que se artificializou, que se desprendeu da natureza.
Belluzzo: O estoque de conhecimento é ilimitado, o que nos permite antecipar a inovação.
José Roberto: Por exemplo, a Noruega hoje exporta mais tecnologia de petróleo que petróleo mesmo.
José Eli: No Pré-Sal há uma variável: não sabemos o que acontecerá com o petróleo do Iraque. Se a situação se estabilizar vamos ter um petróleo de melhor qualidade e mais barato.
José Eli: Toda renda do pré-sal deveria ir para inovação, ciência e tecnologia: educação científica desde o fundamental.
José Eli: Mas hoje a discussão não é essa: se concentra em usar os recursos em tudo, menos educação científica. Devemos lembrar exemplo da Coreia, com seu investimento maciço em educação.
Belluzzo: Sobre o tema do viés da educação para a área de Humanas, na verdade  a educação no Brasil está enviesada para a “desumanidade”. Alunos chegam na universidade incapazes de interpretar texto.
Belluzzo: O que vemos na internet é terrível. O  Twitter está a um passo de ser um grunhido. O texto elaborado desaparece.
Belluzzo: Com educação abordamos o ambiente social em que os brasileiros vivem.
Furo: Belluzzo cita trabalho do neurocientista Miguel Nicolelis no Rio Grande do Norte, que será reproduzido no Palmeiras.

Pergunta sobre custos das externalidades.
José Roberto: Pergunta difícil. Resposta está no sistema de premiação ou punição empregado. Não vejo outra saída.
José Roberto: área regulatória ainda é subaproveitada. Sistema de impostos no Brasil é maluco do ponto de vista distributivo.
José Eli: O lado judicial vai influir também na mensuração dos custos das externalidades, vide exemplo do desastre da BP. Em algum momento um juiz terá de decidir valores indenizatórios. Que parâmetros usará?

A sustentabilidade é um valor que já se legitimou na sociedade.

Pergunta: por que os alertas sobre impactos ambientais do desenvolvimento não foram ouvidos?
José Eli: Não é questão apenas de grita dos ambientalistas, por exemplo. É difícil mesmo entender os modelos complexos de aquecimento global.
José Eli: A maioria dos políticos acredita no aquecimento, mas não entende o modelo. Há outras razões para esta aceitação, além do conhecimento técnico.
José Eli: Houve virada na opinião de líderes em 2007,  com o furacão Katrina, o trabalho do Al Gore etc.
José Eli: A palavra sustentabilidade é nova, até outro dia não se falava nisso, mas o conceito teve trajetória de desenvolvimento longa e hoje está no vocabulário comum.
José Eli: Sustentabilidade é um valor, tem a ver com o futuro, e está na cabeça e discurso das pessoas. É uma mudança enorme.
José Eli: As empresas têm muito mais velocidade para se adaptar às mudanças devido às pressões que recebem. Pode até começar como greenwash, mas acabam levando a sério.
José Eli: Não quero fazer discurso rosa, há muito a ser feito.
José Eli: Por exemplo, a Usina da Thyssen no RJ vai dobrar pegada de CO2 da cidade.
José Eli: Pacote de maldades continua: bancada ruralista vai aumentar no momento de discutir desastroso código florestal do Aldo Rabelo.
José Eli: Mas a sustentabilidade é um valor que já se legitimou na sociedade.

É vergonhoso que o Brasil tenha deixado o tema do saneamento básico de lado. Pouco mudou nos últimos 20 anos. É uma tragédia.

Pergunta: A sociedade pode abdicar da ideia do crescimento?
José Roberto: Pouco provável que sociedades de renda média para baixo aceitem padrões limitados de crescimento.
José Roberto: Os padrões americanos de consumo são desenfreados e China vai no mesmo caminho.
José Roberto: Crescimento baixo é boa ideia quando contexto cultural permite, mas isto não está generalizado.
José Roberto: Devemos ser realistas, estamos distantes de adotar o conceito do crescimento limitado.
José Eli: Recomendo leitura do relatório da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Inglaterra: “Prosperidade sem crescimento?” Leia mais aqui.
José Eli: Na definição de pobreza falta levar em consideração, por exemplo, a importância da falta de saneamento básico.
José Eli: Um estudo recente mostra que parasitoses na infância tem relação direta com menor capacidade intelectual.
José Eli: Se a criança teve diarreia constante na fase inicial da vida tem sua capacidade de aprendizagem futura comprometida.
José Eli: No Brasil pelo menos 50% da população não tem esgoto. Não se pode falar em diminuição de pobreza sem resolver isso.
José Eli: É vergonhoso que o Brasil tenha deixado o tema do saneamento básico de lado. Pouco mudou nos últimos 20 anos. É uma tragédia.
José Eli: Não acredito nestas contas de saída da pobreza baseada apenas em renda. E a China vai pelo mesmo caminho.

Fim do debate.

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