Tiririca e o fortalecimento da democracia no Brasil

Na real, o que o torna menos digno que qualquer outro?

Toda esta discussão a respeito da eleição recorde do Tiririca me faz pensar que uma boa parte das criticas e indignação mal escondem um profundo e arraigado preconceito – para não dizer ódio – de classe. Não nego que me incomoda pensar que poderíamos ter uma representação no Congresso mais “qualificada”, vamos dizer assim, com mais capacidade de se aprofundar em discussões e soluções profundas para os desafios do Brasil. Mas a verdade é que esta representação hoje já é mínima e não será Tiririca que vai baixar o nível.

Primeiro, reclamam que ele não passaria de um “pobre coitado” jogado na eleição para puxar votos para seu partido, e com isso levar mais dois ou três candidatos obscuros para a Câmara. Sobre a tática eleitoral não duvido, já que não seria a primeira vez a ser usada e, afinal, o nosso sistema eleitoral a permite. Mas não conheço Tiririca o suficiente para dizer concretamente que ele não passaria de um ingênuo manipulável. Uma opinião como essa obviamente traduz um preconceito, na acepção original da palavra, uma vez que eu estaria chegando a um suposto a partir de uma percepção sem comprovação real. O fato é que ele tem uma carreira nos palcos e na televisão que não vem de hoje e imagino que pelo menos a capacidade de administrá-la ele tem. Ou seja, não deve ser tão idiota assim.

Segundo, reclamam de seu suposto analfabetismo. Esta para mim não cola. Especialmente porque ao longo da história do Brasil foram exatamente sujeitos com faculdade, mestrado e doutorado os que muitas vezes levaram o país para o buraco e se locupletaram e continuam se locupletando até dizer chega (mas nunca dizem chega). Diploma, portanto, está muito longe de ser critério de inteligência, capacidade e honestidade. Claro que se poderia dizer que uma pessoa que não sabe ler pode ser induzida a erro na hora de assinar documentos ou apresentar propostas de lei.

Mas pensemos em uma pessoa que é cega, para quem de certa forma os mesmos critérios se aplicariam. Claro, há textos em braile, mas quantos documentos produzidos no Congresso são feitos em braile? Aposto que muito poucos. Na verdade, com toda a tecnologia de inclusão hoje existente, por exemplo com o uso de software de voz para leitura de textos, tanto um analfabeto, como um cego, podem muito bem exercer seus mandados. Com isso defendo que analfabetismo não deveria ser critério de impedimento de eleição de ninguém.

De palhaços e palhaçadas
Em terceiro lugar reclamam que o Tiririca é um palhaço e que sua eleição de certa forma “envergonharia” nosso Congresso. Fala sério! E palhaços, inclusive vestidos como tal, não podem ser digníssimos deputados? Mas médicos, por exemplo, podem, né? Especialmente se estiverem com seu jaleco branco e estetoscópio no pescoço, denotando toda sua “dignidade” e “respeitabilidade”.

As minhas aspas irônicas vão para o fato de que este raciocínio é o mais pobre de todos. Não tenho nenhum, absolutamente nenhum problema, em ter palhaços, domadores de leão, ex-jogadores de futebol e até mulheres—frutas ou ex-atrizes pornô no Congresso convivendo com nossos doutos advogados, médicos, jornalistas e políticos profissionais de todos os matizes.
 
Não parto do princípio de que qualquer destas categorias profissionais gerará necessariamente melhores ou piores congressistas. Na verdade acredito que um Congresso que represente esta multiplicidade de opções – por mais esdrúxulas que pareçam à primeira vista – é sempre melhor e mais democrático do que um parlamento unidimensional.

Democracia fortalecida
Imagino que muita gente no fundo gostaria que tivéssemos uma representação que resgatasse o conceito original do Senado romano, de patrícios que representassem o supra-sumo intelectual, moral e social de sua época. Um grupo de sábios que tivessem o interesse coletivo acima de seus próprios e pudessem apontar os rumos da sociedade para uma direção pautada no bem  comum. Sinto muito dizer que nem em sua época os romanos acreditavam nisso e seu Senado, composto em geral por representantes de famílias de patrícios “quatrocentões” que remontavam às origens da República, sempre foi um ninho de corrupção e intrigas.

Portanto, por que não um palhaço? Inclusive vestido como tal, se for o caso? O que não acontecerá, uma vez que o “decoro parlamentar” obrigará Tiririca a vestir-se de terno e gravata, como no passado o fez com o Cacique Juruna. Aliás, para mostrar como esta discussão não é exclusiva do Brasil eu me lembro de que quando morei no Peru em uma época houve uma discussão acalorada na imprensa porque duas deputadas de origem aymará eleitas para a Câmara nacional insistiam em usar suas roupas tradicionais no plenário.  Diziam que elas feriam o “decoro” e a “ordem” ao insistir em usar suas roupas “típicas”.
 
Enfim, Tiririca foi democraticamente eleito por 1.353.820 eleitores. E aí vem o aspecto mais nefasto, em minha opinião, das críticas à eleição do palhaço. Em geral o que tenho lido e ouvido são perorações veladas ou explícitas sobre a incapacidade e/ou inconsciência dos eleitores. Como se este 1,3 milhão de pessoas fossem um bando de irresponsáveis ou néscios, tal como o candidato que elegeram. Isto, para mim, é um profundo e atávico desrespeito à vontade dos eleitores, a qual, gostemos ou não, é soberana. Cada eleitor tem sua razão para ter votado no Tiririca e esta razão lhe pertence, mesmo que tenha sido por pura galhofa. O mesmo vale para aqueles que deram mais de 500 mil votos para o Maluf.

Democracia é isso. Não dá para pensar que ela só é boa quando vai ao encontro dos nossos conceitos e preconceitos. Ao contrário do que muita gente pensa a presença no Congresso do Tiririca – e até mesmo do Maluf, caso a Ficha Limpa acabe não valendo nestas eleições – é símbolo da força da nossa democracia e está muito longe da decadência do velho Senado “patrício e quatrocentão” romano.

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Uma resposta para “Tiririca e o fortalecimento da democracia no Brasil

  1. Renato,
    A democracia é assim mesmo: quando a gente não concorda, tem que aceitar que o camarada foi eleito com mais de 1 milhão de votos! No caso do Tiririca, pode ser até preconceito, mas eu tenho quase certeza que o coitado vai ser usado pelos mais “esclarecidos” e “rodados” políticos do congresso… Será facilmente manipulável…
    O que a gente não pode reclamar é do fato de que ele não tem estudo. Como você falou, tem muita gente com mestrado e doutorado que fez muito mal para o país. Mas que é difícil acreditar que ele não vai “entrar na roda”, ah, isso é…
    Abração

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