Fórmula 1 e sustentabilidade. A combinação é possível?

Meu post  sobre a minha participação este ano no circo da Fórmula 1 em São Paulo, graças a um prêmio do Keep Walking Club, me chamou a atenção, é claro, para o tema da sustentabilidade: é possível ser sustentável em um ambiente tão volátil no qual parece predominar o uso excessivo de recursos, como combustível, pneus, eletricidade e por aí vai?

Acredito que a resposta é sim, e a própria indústria já está se mexendo, graças principalmente à pressão dos patrocinadores, alguns dos quais querem ver suas marcar associadas a um esporte mais “verde”.

Em junho deste ano a FOTA (Formula One Teams Association – a associação das equipes da F1) anunciou sua intenção de reduzir em 12.43%, até 2013, suas emissões de carbono, se comparadas aos níveis de 2009. Os construtores se orgulham de a Fórmula 1 ser o único esporte cuja pegada de carbono foi totalmente calculada, permitindo um planejamento de longo prazo e o monitoramento permanente.

Fontes de emissão de carbono na Fórmula 1. Fonte: Trucost.

Os planos da FOTA incluem também investir mais em tecnologia para que os motores  dobrem a sua eficiência no consumo de energia. A associação diz que, tal como outras inovações desenvolvidas para os carros de corrida, esta eficiência acabará chegando aos carros de rua.

O interessante é que, ao contrário do que muita gente pode pensar, o maior vilão da emissão de carbono na Fórmula 1 não é o consumo de combustível pelos carros, responsável por apenas 0,3% do total de emissões – isto apesar de que cada carro faz em média apenas oito quilômetros por litro de combustível.

De qualquer jeito a FOTA, em conjunto com a FIA (que organiza a Fórmula 1), pretende continuar investindo na eficiência dos carros, incluindo a contínua limitação na quantidade de combustível que cada carro pode usar durante a corrida.

A previsão é que deixem de ser usados os atuais motores V8 de 2.4 litros, que consomem aproximadamente 160kg de combustível, por outros, mais eficientes, V6 ou de quatro cilindros em linha. Com isso a expectativa é reduzir pela metade o consumo de combustível.

De onde escapa o CO2
O estudo feito pela consultoria Trucost para a FOTA (que pode ser baixado aqui) revelou que a esmagadora maioria da emissão de carbono da Fórmula 1 se dá na logística de transporte das equipes de uma corrida para outra, no uso da eletricidade, especialmente nos túneis de vento usados para testes, e na compra de suprimentos (peças e partes dos carros).

Previsão da redução nas emissões de carbono na Fórmula 1 até 2012. Fonte: Trucost.

Em todos estes itens foram identificadas formas de melhorar o desempenho. No caso da logística, uma das sugestões é racionalizar o calendário da Fórmula 1, agrupando as corridas em pontos comuns do planeta. De fato, me pareceu uma loucura quando nos disseram que logo após a corrida em Interlagos absolutamente toda aquela estrutura que estávamos vedo seria literamente empacotada e enviada para Abu Dabi, do outro lado do globo, em questão de horas.

No momento pensei não apenas nos custos para manter esta logística funcionando de forma tão azeitada, mas principalmente nos impactos sobre o meio ambiente e na emissão absurda de carbono que deve resultar desta operação, que se repete durante todo o ano.

O problema que este calendário, aparentemente irracional, atende certamente a interesses dos patrocinadores e países que recebem as corridas. Se a FOTA conseguir realmente racionalizar um pouco mais este processo, já será uma grande vitória.

Outras medidas
Algo da inovação na Fórmula 1 já começa efetivamente a chegar nas ruas. Um exemplo é o carro modelo T25, desenhado pelos estúdios Gordon Murray, e lançado recentemente na Inglaterra, que usa tecnologia da F1 para reduzir as emissões de carbono.

Carro-conceito T25

Há também iniciativas  no mínimo curiosas, como a promovida pelo ex-piloto F1 Erik Comas, que é um entusiasta dos carros elétricos. Ele comprou cinco Tesla Roadster, capazes da sair de 0 a 97 km/h em 3.7 segundos, e os adaptou para serem movidos a eletricidade gerada por poderosas baterias.

O ex-piloto aluga os carros para quem quer ter uma experiência diferente nos Alpes suíços, a qual inclui paradas em restaurantes 5 estrelas e palestras sobre sustentabilidade. A idéia é mostrar que é possível ter diversão e alta velocidade com menor comprometimento sobre o meio ambiente.

Mas a verdade é que o movimento implementado pela FOTA já encontra paralelo em outras categorias. A americana NASCAR anunciou há três anos uma serie de iniciativas para ficar mais “verde”, incluindo a total reciclagem dos pneus, óleo, fluidos e baterias usados em suas competições. 

Mais recentemente, a NASCAR anunciou com fanfarra a decisão de incluir 15% de etanol ao combustível usados nos carros, com o intuito de baixar a emissão de carbonos. Etanol americano de milho, claro, bem menos eficiente do que o nosso a base de cana-de-açúcar.

Sempre se pode recla,mar que no fim das contas iniciativas como estas da FOTA e da NASCAR não passam de maquiagem verde (greenwash). Mas prefiro ver pelo lado cheio do copo. Em primeiro lugar é melhor isso do que nada. Em segundo lugar, a cada vez que a industria assume compromissos públicos, mesmo que aparentemente pequenos, isto eleva um pouco mais a barra do setor como um todo. Fica mais difícil voltar a atrás e gera mais cobranças para seguir adiante.

Virá o dia da F1 com carros totalmente movidos a eletricidade, etanol, hidrogênio ou qualquer outro meio renovável e com menor emissão de carbono? E principalmente com uma logística mais racional e que tome em conta, alem dos legítimos interesses dos patrocinadores, o impacto menor sobre o meio ambiente?

Sinceramente acredito que sim. É questão de tempo. E na F1 o tempo conta em milesimos de segundos.

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Uma resposta para “Fórmula 1 e sustentabilidade. A combinação é possível?

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