Conectividade e transformação: de Belterra, no Pará, estudante de 16 anos dá aula de cidadania

Gabriel Faria, estudante de 16 anos, é uma jovem liderança na cidade de Belterra, a cerca de 850 Km de Belém (PA). Ele e outros jovens usam a internet e redes sociais para informar e mobilizar a comunidade em ações de meio ambiente, educação e cidadania. O SustentaNews aproveitou a presença de Gabriel em São Paulo para conhecer um pouco mais sobre ele e sua experiência. Veja a entrevista a seguir.

“Bela Terra”. Esta foi a impressão que teve a trupe de estrangeiros que chegou no começo da anos 30 do século passado até aquele ponto da floresta amazônica, uma planície na beira do belíssimo rio Tapajós, a cerca de 50 quilômetros de Santarém, no Pará. Eles estavam procurando o melhor lugar para concretizar o delírio megalomaníaco de Henry Ford, que desejava controlar o ciclo de produção da borracha desenvolvendo a maior plantação privada de seringueiras do mundo. O empresário não mediu esforços e em poucos anos construiu no meio da floresta um povoado com toda a estrutura e arquitetura típicas de uma cidade americana.

Gabriel Faria, logo depois da sua fala na Campus Party 2011.

O projeto não deu certo, mas dele surgiu “Belterra”, emancipada somente em 1997 e que atualmente conta com cerca de 16 mil habitantes. Entre eles Gabriel Coelho Farias, um adolescente de 16 anos, típico representante da “pós-Geração Y”: cheio de ideias e atitudes, com consciência social e ambiental, sentido de liderança, domínio das tecnologias e da cultura digital e usando a internet e as redes sociais para mostrar ao mundo a realidade em que vive, ensinando e aprendendo.

Apesar da pouca idade, Gabriel é um adolescente viajado. E sua mais recente aventura foi ter encarado mais de oito horas de viagem por terra e avião de Belterra para Santarém, dali para Belém e finalmente a São Paulo para participar do Campus Party. Ele participou da mesa “Tecnologia e Cultura: Produção, difusão e acesso”, a convite da Fundação Telefonica, junto com André Mintz, artista vencedor do Prêmio Conexões Tecnológicas 2008, voltado à estudantes que trabalham com arte e tecnologia, Kollontai Diniz, designer gráfica na Brasiliana USP e Henry Grazinoli, cineasta, educador e editor do Portal Tela Brasil.

Como é Belterra. Como é a vida lá?
Belterra é uma cidade pequena. Pequena no tamanho da população, mas quanto à extensão é enorme, abrange muitas comunidades ribeirinhas, planaltos. Belterra é incrível, mas o mais incrível é quando você vai perguntando quem é da família Coelho. Perguntam pelo “Gabriel Coelho” e dá tudo na mesma família. Somos uma comunidade quase inteira porque minha avó nasceu lá, entende?

Belterra é uma cidade pouco desenvolvida porque não tem teatro, não tem cinema, não tem assim um espaço de lazer. E isso prejudica muito o turismo porque só tem as praias e ninguém vai para a praia de noite, por exemplo. Fica aquela coisa chata, não tem para aonde a gente sair, não tem cinema pra gente se divertir.

Geralmente o que você e seus amigos, o pessoal mais jovem, fazem para se divertir?
A opção que tem é você se juntar com seus colegas, arranjar um modem bem bacana, que pegue bem o sinal de internet, e fazer essa rodada: vamos tuitando, colocando as coisas na rede. É um ponto de diversão.
Outras vezes o pessoal vai para a praça, que também é pequena, esse tipo de coisa. E no domingo é dia de ir para as praias, não tem outra.

Então, quando apareceu a internet em Belterra foi para vocês bem importante?
Foi um resgate do tédio. Foi incrível.

“Depois que chegou a tecnologia móvel todo o processo evoluiu e a gente passou a ter mais contato com o mundo.”

E como foi quando a internet chegou?
A internet chegou há uns três anos. E o 3G, com mais velocidade, chegou há poucoas mais de um ano. A primeira internet não era tão boa porque era lenta, era via satélite. Depois que chegou a tecnologia móvel todo o processo evoluiu e a gente passou a ter mais contato com o mundo. E todos os meus amigos têm acesso a internet.

Você tem 16 anos, vem de uma cidade pequena, mas dá para ver que tem uma facilidade de lidar com novas situações, de falar em público. É da sua personalidade ou acha que a internet ajudou a ficar mais ligado no mundo?
 
A internet ajudou também porque eu era muito tímido. Depois que a internet chegou fui tendo mais contato com o mundo e aí, sim, fui evoluir nesse processo pessoal.

Essa possibilidade que você tem de ter contato com o mundo, que a internet está te dando, te ajuda a ficar mais seguro?
Isso. E também percebo isso nos meus amigos.

Gabriel Faria chegando na Campus Party. Foto: Renato Guimaraes

Em que projetos você está envolvido em Belterra?
Um dos projetos é o vídeo participativo. A gente trabalha com os jovens com oficinas de diversos tipos, para alimentar, por exemplo o blog de Belterra (http://belterra.redemocoronga.org.br/). Ou seja, cada jovem cria o seu trabalho, faz uma pesquisa, traz uma foto, faz um vídeo contando uma historia que a gente não sabe e usa para alimentar o blog. Esse é um dos nossos projetos.

Tem também o projeto de meio ambiente, que é escolar, feito na rede pública, e que hoje está envolvendo para lá de 300 alunos.

Como é este projeto?
No projeto Bela Água fazemos panfletagem, indo de casa em casa falar com os moradores sobre o uso consciente da água.

Por que isso é tão importante?
Porque na nossa cidade somos abastecidos por um igarapé de água cristalina e totalmente natural que vem do fundo da terra. Nós prestamos atenção que estava ocorrendo uma série de erros. Por exemplo, a derrubada da mata ciliar etc. Resolvemos criar este projeto para evitar isso.

Como fazem?
O dia-a-dia do projeto é o seguinte: a gente pega uma turma de alunos, por exemplo, e palestra, ensina aquela turma. No outro dia a gente faz isso com outra turma, até terminar todas as turmas. Depois que terminamos esse trabalho com todas as turmas  juntamos todo mundo para fazer o trabalho na rua com as pessoas. Vamos de casa em casa falando, panfletando.

E como as pessoas costumam reagir?
Tem algumas pessoas que recebem mal porque falamos muito sobre a taxa de água, que poucas pessoas pagam. Muita gente reage mal quando falamos disso. Elas não pagam porque nosso sistema de abastecimento é muito antigo, nunca foi cobrado. A prefeitura nunca cobrou e nem cobra e por isso as pessoas não se importam com a infraestrutura do sistema de abastecimento.

“Como falei eu era muito tímido, mas quando comecei esse “namoro” com o telecentro mudou muita coisa na minha vida.”
Tem outro projeto no qual se trabalha mais com a questão da informática, internet. Fala mais sobre isso…
É no Telecentro, onde a gente trabalha com horários livres e com aulas de informática, nas quais a gente ensina desde a criação da informática até a internet, a evolução do mundo. As pessoas também têm acesso livre a qualquer rede social que quiser.

Como falei eu era muito tímido, mas quando comecei esse “namoro” com o telecentro mudou muita coisa na minha vida.

Outra pessoa que também foi muito importante na minha vida foi a coordenadora do Telecentro na época, a dona Antonia Oliveira. Ela sempre teve essa coisa de brincar com a gente, de chamar a atenção, conversar, dialogar. Aí eu fui desenvolvendo isso e hoje estou aqui.

E como é a participação das pessoas?
Todo mundo apoia o Telecentro e quer que ele permaneça porque todos participam.

Você comentou que a primeira Lan House que abriu em Belterra faliu em poucas semanas. Por que não deu certo?
Porque na época não havia nenhum curso, vamos dizer assim. As pessoas eram aéreas quanto ao assunto, não tinham um bom uso da máquina, não sabiam utilizar o computador. Ou seja, o dono botou esta lan house mas foi à falência porque as pessoas não sabiam usar.

Depois que veio o telecentro já foram abertos seis novos cybercafés e lan houses em Belterra. E todas vivem cheias.

No tempo livre o que o pessoal usa mais na internet?
Usam mais o Orkut e o Twitter. Vamos dizer que já virou mania.

Casa em Belterra construída para receber Henry Ford. Ele nunca chegou a usá-la, já que desistiu da viagem devido à morte do filho.

Como você vê a importância do Twitter? O que você e seus amigos tuitam geralmente?
Assuntos gerais. Tem gente que só digita coisas da vida, do dia-a-dia, mas tem gente que resolve colocar conhecimentos, um pouco da sua cultura.

Fale sobre a Rede Mocoronga.
A Rede Mocoronga é formada por 41 comunidades. Cada uma tem um login a partir do qual entra na rede e ali ela pode colocar vídeos, desenvolver um trabalho na sua comunidade e postar na Rede Mocoronga. Com isso o trabalho vai para qualquer pessoa do mundo que quiser acessar.

É só ir no www.redemocoronga.org.br que lá existe uma série de trabalhos, como o “MocorOscar”, um prêmio para os melhores vídeos produzidos em 2010. O melhor ganha o MocorOscar, uma espécie de Oscar em plena Amazônia. Os vídeos abordam várias coisas e só ganham quem tem mais criatividade, originalidade, quem com as mais simples ferramentas consegue fazer o trabalho mais complexo. Geralmente os vídeos abordam a realidade das comunidades ribeirinhas.

Tem outro concurso, o “Minha Comunidade”. Qualquer pessoa pode participar desde que seja feito um vídeo usando câmera de celular. Só pode ser de celular. Faz um vídeo mostrando o dia-a-dia da comunidade, o que aquela pessoa faz, quais são seus costumes. Pode contar uma lenda local, alguma coisa daquela comunidade. O melhor e mais criativo vídeo ganha uma premiação que por enquanto é surpresa, não foi divulgada no site. O concurso ainda está aberto.

De Belterra você já viajou para outros lugares para participar de eventos. Foi para o Rio e agora está em São Paulo para a Campus Party. Como é isso para você?
É um orgulho para minha própria pessoa. Porque a gente conhece outros lugares pelo nosso próprio esforço. É uma coisa incrível porque você conhece várias pessoas, ganha novas experiências, troca informações, que é o mais importante. Assim você coloca novos conceitos, ganha mais habilidade, entre outras.

“Quando um aluno expõe uma opinião isso significa que ele está aprendendo, que ele está formando um caráter… Isso é uma coisa muito bonita.”

E quando você volta para Belterra compartilha com os amigos?
Sim, com certeza. A gente compartilha e vê o que poderia ser bacana de implantar na nossa própria comunidade. Às vezes a gente implanta coisas que foram vistas em outras viagens.

E como você vê os professores com esse tema da cultura digital?
Antigamente, logo que surgiu a internet lá em Belterra, os professores ficavam aéreos, eles não se interessavam por internet e não sabiam o que falar para os alunos. Era só aquilo que vinha no conteúdo programático e pronto, acabou.

Hoje, depois de muito conflito na sala de aula, os professores foram se modernizando, fazendo capacitações, e hoje em dia o professor já interage com os alunos. Por exemplo, divide opiniões, duplica opiniões sobre determinado assunto. Acho isso super bacana porque quando um aluno expõe uma opinião isso significa que ele está aprendendo, que ele está formando um caráter, defendendo a própria opinião. Isso é uma coisa muito bonita.

Você já teve um aluno que tinha 78 anos de idade. Como foi isso?
Não foi tão difícil porque ele era muito esforçado, muito interessado. Foi muito legal porque eu aprendi com ele, ele aprendeu comigo, nós aprendemos um com o outro.

Participantes de oficina de internet no Telecentro de Belterra. Fonte: http://http://cidadebelterra.blogspot.com

Como você se sentiu sendo um adolescente de 15 anos ensinando para um senhor de 78 anos?
Uma coisa normal, como ele me ensinou eu também posso ensinar. É uma cosa de gerações e ele me respeitava como monitor, assim como eu o respeitava pela sua idade

Já ouviu falar de sustentabilidade? O que acha disso?
A sustentabilidade é muito importante. Se a gente não cuidar do nosso planeta, não teremos nada no futuro. Sempre falo isso na sala de aula, com meus alunos no Telecentro. Oriento, por exemplo, a não jogar papel no chão. Daí alguém diz: “todo mundo joga”. E eu respondo que um papel, mais um papel, chega a um milhão. Ou seja, a gente tem de ter aquele carinho, aquele cuidado de jogar o papel na lixeira porque um papel faz muita diferença.

Você acha importante então trabalhar estas ideias na sala de aula com as crianças?
Acho fundamental. Eu exijo mesmo um comportamento delas porque a minha primeira turma foi de crianças. Lembro que passei um teste e quando terminou a aula tinha cinco papeis jogados fora da lixeira e eu exigi que as cinco pessoas que jogaram os papeis fora juntassem tudo. Daí eu dei uma aula só sobre meio ambiente e vi que aqueles alunos nunca mais fizeram aquilo, pelo menos não na minha aula. Vejo que é muito importante usar a sala de aula porque se a gente planta uma ideia na criança, ela vai desenvolver aquela ideia depois.

No Pará há muito problema com a exploração da floresta. Há este problema em Belterra?
Temos sim. Tanto que no inicio de 2005 nós tínhamos acho que cerca de 90% de cobertura da floresta e agora parece que temos cerca de 70%. Chegaram agricultores de fora e acabaram derrubando, alagando várias terras para plantar arroz, soja, e isso prejudicou bastante a nossa cidade.

Vista do pôr-do-sol no rio Tapajós, em Belterra. Fonte: http://cidadebelterra.blogspot.com

E como a comunidade reage a isso?
Muita gente reage como se fosse uma coisa normal.  Mas o nosso grupo reage na internet, denuncia o que está acontecendo. A gente sempre teve este hábito de denunciar.

Chega a ter violência?
Isso graças a Deus não.

Você comentou que tem muito orgulho do seu pai…
O meu pai é o meu orgulho, porque ele é agricultor, trabalha desde novo na roça, fabricando farinha. Ele era pescador, mas agora é agricultor. Ele sempre me incentivou. Tudo o que eu quero ele está disposto a me ajudar, tudo para o meu bem estar. Ele não mede esforços para nada entende?
 

É isso que admiro no meu pai e na minha mãe, porque eles estão sempre do meu lado, me apoiando apesar de serem agricultores.

Como você vê o seu futuro?
O que eu desejo fazer é terminar meus estudos, continuar esse trajeto que estou seguindo de informática, cultura digital, continuar sempre explorando e ganhando mais conhecimento sobre o assunto. E conseguir um bom emprego, se Deus quiser. De repente ser médico… ainda não está muito certo, mas poderia ser, dependendo de como vão as coias.

Que mensagem você teria para os jovens da sua idade? O que deveriam fazer agora para se tornarem pessoas realizadas?
Eu diria para eles uma coisa que sempre o meu pai disse para mim: que o estudo é tudo na vida, ele é a companhia na vida de uma pessoa, é tudo, é um deus na vida de um homem. Se você não estuda não consegue nada. Ele sempre me diz isso e é o mesmo que eu diria para os jovens: estudem. Porque esse, sim, é o verdadeiro futuro.

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5 Respostas para “Conectividade e transformação: de Belterra, no Pará, estudante de 16 anos dá aula de cidadania

  1. Este é o nosso Gabrielzinho. Um menino que chegou aos 10 anos no Telecentro de Beterra e logo percebemos sua capacidade de liderança. Fez o curso básico de infomática e nunca mais saiu do mundo digital.
    É daqueles jovens que não precisa dizer o que fazer, ele ve as necessidades e logo vai fazendo o que pode. Vamo em frente @belterrence, porque a luta continua e temos muito o que fazer.

    @monicabelterra

  2. Pingback: Belterra · Entrevista do blogueiro Gabriel Farias·

  3. Pingback: Rede Mocoronga» » Entrevista do blogueiro Gabriel Farias·

  4. Adorei a entrevista, Renato! Muito sensível! E esse garoto é demais! Vai entrar como exemplo no tema Geração Interativa no Grupo de Estudos.

    Que lindo, Monica, que orgulho! Parabéns!

    @prigon

  5. Parabéns, Gabriel!

    Pelo engajamento e pela grande vontade de continuar aprendendo. Fico muito orgulhosa de perceber vc foi muito além, do que a viagem e participação na I Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente. É muito bom perceber o quanto jovens como você são capazes de fazer para poder contribuir com sua cidade, região, país e o mundo. Continue assim.

    Sucesso, com paz e bem! Abraços.

    Ângela Rocha dos Santos
    Coordenação de Projetos Educacionais
    Diretoria de Ensino – PROEN
    Universidade Federal do Oeste do Pará-UFOPA

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