Imprensa e Carnaval: Samba de uma nota só

Confesso que nunca entendi muito bem os critérios de montagem das capas de jornais. Sempre imaginei que haveria alguma espécie de “conselho arcano de iniciados”, reunido em salas inacessíveis aos “não-iniciados”, e que estes privilegiados usariam de sua inteligência e visão superior para determinar que notícias e imagens comporiam a fachada de cada edição. Obviamente, é tudo muito mais simples e tem a ver com critérios editoriais mais ou menos objetivos e com a percepção sobre o que vai atrair mais a atenção do leitor. Mas a capa de hoje (05/03/2011) da Folha de São Paulo mostra que estes critérios podem ser melhor afinados.

Manchete e foto não se comunicam. A primeira fala da avalanche de multas aplicadas em São Paulo e a segunda é um close da ex-participante do Big Brother Brasil Cacau, destaque do desfile da Escola de Sampa paulista Unidos do Peruche. Mas o que chamou a atenção é justamente o uso desta imagem supercolorida, mas esteticamente feia, em um espaço tão nobre do jornal. A protocelebridade Cacau aparece inclusive com uma expressão facial que a desfavorece, com a imagem flagrando o momento em que seus músculos faciais faziam um rito de contração feio, como que trincando os dentes.

Isso obviamente não é o mais importante, mas sim o aspecto de pura “não-notícia” da imagem. É de se perguntar qual é a relevância estética ou noticiosa que determinou que esta imagem ocupasse espaço tão nobre na capa da Folha. Por outro lado, folheando o jornal o leitor mais atento se depara com a capa do sempre interessante caderno Folhinha, dedicado aos leitores infantis e pré-adolescentes.

A capa do caderno traz uma foto bonita do mangueirense Davi de Souza, de 10 anos, herdeiro da tradição familiar de sambistas. A matéria trata justamente de como esta tradição passa dos familiares mais velhos para os mais jovens, transmitindo de geração a geração o amor pelo samba de raiz.

Na minha opinião, tanto esta foto como a chamada para esta história interessantíssima deveriam estar no topo da capa do jornal. Como leitor, vejo muito mais relevância em uma matéria que me traz um ângulo inovador do carnaval do que os “business as usual” de destacar protocelebridades com pouquíssima ou nenhuma conexão com a tradição.
Mas o pano de fundo é a necessidade de os jornais pararem de subestimar seus leitores e serem mais ousados, questionando seus próprios critérios de relevância editorial.

Vejam abaixo ambas capas e digam se concordam ou não comigo. No mais, feliz Carnaval!

 

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2 Respostas para “Imprensa e Carnaval: Samba de uma nota só

  1. Renato
    Muito boa a tua leitura da putrefacao visual de la Hoja de Sun Pablo. Proto, sub, quasi, neo ou infra-celebridades abundam, literalmente, nossos periodicos mais respeitados. Eu ainda acho muito pior o Globo que, alem de tudo isso, ainda comete erros gramaticais tremendos.
    Mas essa gente que a gente ve influencia muito as coisas que a gente quer fingir que nao ve.
    Abracao
    JD

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