Sustentabilidade: do balão de gás à crise de alimentos, mais tempo para a humanidade

O que tem a ver sustentabilidade com os inocentes balões que animam as festinhas infantis e encantam as crianças?  Antes que me falem do lixo que resulta do hábito de estourar os balões que sobram no fim da festa explico que a relação é ainda mais complexa. Principalmente quando falamos daqueles cheios de gás, cujos dias parecem estar contados. Pouca gente sabe, mas o gás Hélio, usado para garantir a “flutuabilidade” de balões a dirigíveis, está desaparecendo: as reservas mundiais vão acabar em 30 a 40 anos.

Apesar de ser um dos elementos mais abundantes do universo, a única forma de obter gás Hélio na Terra é pela exploração direta de suas moléculas incrustadas em rochas. A maior reserva está nos Estados Unidos, que desde 1996 mantém uma política de preço fixo cujo resultado principal é a sobre-exploração deste recurso e a falta de incentivo para o seu uso racional e para sua reciclagem. Cientistas dizem que se a lei de oferta e procura regulasse livremente este mercado, os balões a gás deveriam custar 100 dólares.

Com o esgotamento do gás Hélio os inocentes balões poderiam custar US$ 100

O problema é que o Hélio não pode ser produzido em laboratório e os custos de separá-lo da atmosfera artificialmente são simplesmente proibitivos. Ele é um recurso não renovável e insubstituível. Levou o tempo de vida da Terra para formar o estoque atual de cinco partes por milhão na atmosfera, sendo que apenas parte disso foi capturada principalmente nas reservas de gás natural, de onde é retirado. Quando esta reserva acabar, simplesmente não haverá mais Hélio para uso humano. Entenda melhor esta história aqui.

Não serão apenas as crianças que sofrerão por não ter mais seus balões de gás para brincar. Na verdade o Hélio é importantíssimo em diversas aplicações industriais, pesquisas científicas e em sistemas tecnológicos modernos. Está presente desde nos equipamentos de ressonância magnética, fibras óticas, produção de chips de computador, até na pressurização dos tanques de combustível dos ônibus espaciais da NASA.

E todo este importante recurso natural pode desaparecer em 30 ou 40 anos. Como isto é possível? Simples: é um recurso natural que acaba, que tem um fim caso não se encontre uma maneira de usá-lo racionalmente e reciclá-lo. E mesmo assim, ele acabará algum dia. 4,5 bilhões de anos para que todo o Hélio existente fosse gerado e ele será consumido pela humanidade em menos de 150 anos!

Sustentabilidade: mais tempo para a humanidade
O mais interessante na história do Hélio é que ela ajuda a entender o que para mim está na essência da sustentabilidade. Sempre que falo sobre o tema evito começar com digressões complicadas sobre triple bottom line, desenvolvimento sustentável etc. Vou direto ao que interessa: sustentabilidade tem a ver com tempo e com limites.

Para ser mais preciso, tem a ver com mais tempo para a humanidade continuar usufruindo das benesses de ser espécie dominante na Terra. Porque vamos ser honestos, o planeta mesmo não está em perigo e a vida segue – e seguirá – independente da espécie humana.

Basta pensar que a Terra já passou por vários momentos nos quais a vida foi praticamente extinta. Os cientistas acreditam que isso até acontece com relativa regularidade, sendo que os eventos de extinção mais radicais são chamados de “Big Five”. O mais severo deles ocorreu ao redor de 250 milhões de anos atrás, durante o período Permiano, e resultou na extinção de cerca de 95% da vida então existente. O mais conhecido é que exterminou os dinossauros, que por cerca de 160 milhões de anos foram os donos e senhores deste planeta.

Seremos nove bilhões de humanos vivendo neste planeta até 2050. Haverá comida para alimentar a todos e todas?

Portanto, a vida ser extinta e recriada é algo relativamente comum na história da Terra. A diferença, agora, é que existe uma espécie que tem plena consciência da sua própria existência, da vida e da morte, e que domina os recursos para interferir diretamente na dinâmica do planeta. Como consequência, tem a capacidade de produzir as condições de uma megaextinção a partir de suas próprias mãos, independente de qualquer inesperado e incontrolável fenômeno natural.

Tempo: seremos nove bilhões de humanos vivendo neste planeta até 2050. Haverá comida para alimentar a todos e todas? E sobre a água? E fontes de energia? E os minerais necessários para os processos industriais? Podemos conta com nossa capacidade tecnológica para administrar esta equação aparentemente insolúvel? E em 2100? E mais adiante?

Notem que estou falando em escalas temporais de 100, 200 anos – insignificantes frente ao tempo geológico apenas do planeta Terra. Lembremos que somente os dinossauros existiram por mais de 160 milhões de anos, enquanto o Homo Sapiens está por aí há apenas uns 150 mil anos; e dominando efetivamente as outras espécies por pouco mais de 20 mil anos.

O futuro é agora
Curiosamente, apesar de sermos a única espécie a ter noção do tempo e de limites, e a filosofar sobre isso, ignoramos coletivamente suas implicações e seguimos adiante, consumindo nossos recursos como se fossem infinitos, como se não houvesse amanhã.

Foi um grande passo quando o conceito de “futuras gerações” surgiu entre os anos 70 e 80 do século passado. Finalmente começou-se a falar sobre o “amanhã” e que herança estávamos deixando para os humanos que viessem depois de nós.

Isto tem implicações profundas, mas não serviu para diminuir suficientemente o nível de saqueio dos recursos naturais que realizamos. Tanto que as consequências começam a ser sentidas agora mesmo. Ou seja, esqueçam as “futuras gerações”! Já temos que pensar nas consequências sobre o mundo agora mesmo. Taí o aquecimento global que não me deixa mentir.

O futuro dos alimentos: consumo maior de grãos supera capacidade de produção resultando em preços maiores. Fonte: The Wall Street Journal

A verdade é que este saqueio só tende a continuar. Basta pensar que para 2050 a população mundial estará ao redor dos nove bilhões. Ao mesmo tempo mais pessoas estarão consumindo mais de tudo, desde alimentos a automóveis, de viagens a roupas, de casas a lazer. Como dar conta deste desafio? Não dá para pensar nisso só em 2049.

Uma notícia publicada no último dia 7/3 no Wall Street Journal (veja aqui) dá conta  do estado de urgência em que vivemos. O resumo é o seguinte: dados mostram que o mundo está consumindo mais grãos do que os produtores são capazes de produzir. Resultado: as reservas estão diminuindo rapidamente e os preços dos alimentos estão sendo forçados para cima. Para piorar, os técnicos e cientistas alertam que esta é uma situação que veio para ficar.

A reportagem mostra como já chegamos ao limite da produção mundial e que mesmo a perspectiva de melhores colheitas servirá apenas para manter os preços e reservas nos níveis atuais. Se houver alguma quebra de produção devido a eventos climáticos extremos, como um El Niño mais forte, a expectativa é a de um aumento brutal de preços, com todo o impacto econômico, político e social decorrente. Basta lembrar que um dos combustíveis da crise egípcia foi justamente um descontentamento generalizado com os níveis de preços dos alimentos.

E por que estamos chegando ao limite? Entre outras razões pelo aumento populacional e pelo crescente acesso de populações de países em desenvolvimento a melhores níveis de vida e de consumo. Como diz a reportagem: “A China já consome quase um quarto da safra americana de soja para engordar os porcos e as galinhas cada vez mais consumidos pela sua classe média. As usinas têxteis do país compram quase um terço das exportações americanas de algodão.”

Obviamente um ritmo de consumo crescente como este exerce uma pressão insustentável sobre os recursos naturais. Nem é preciso ser cientista para entender que algo precisa ser feito agora, e urgentemente.

É neste sentido que a sustentabilidade tem a ver com tempo – e com limites. Nosso tempo, como espécie, está correndo. O limite do planeta para suportar nossa presença e continuar provendo condições satisfatórias para a nossa existência está sendo esticado até o limite: um dia o elástico arrebenta.

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Uma resposta para “Sustentabilidade: do balão de gás à crise de alimentos, mais tempo para a humanidade

  1. Renato
    Gostei muito do texto, principalmente pela parte da Geologia (que me toca nesse latifúndio). O tempo geológico é realmente quase intangível e inimaginável para a percepção humana. Os “eternistas” acreditam que os recursos naturais são infindáveis na escala temporal dos humanóides. Mas a gente sabe que não é bem assim. Não quero que deixem de usar o petróleo, quero que usem ele para fins mais nobres do que um motor V8, 16 cilindros…
    Abraço

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